sexta-feira, 15 de junho de 2007

Depois de nus adivinhar cenários críveis


Lá fora: o silêncio sai das folhas caídas no soalhado do pátio. Lá fora: o desconhecido por agora.

Cá dentro: o relógio da sala acusa o pouco tempo que resta. É uma pressa a entrega.

Baloiço o olhar frente aos espelhos depostos de esguelha na tua sala de tudo receber...titubeio sobre o tapete num fruste tentar em me estatelar de fronte a ti... a vontade é mesmo quedar sobre ti.

Já rendida num abraço, solto o que há de nu em mim. Em postura frágil e inerte encontro-me deitada entre cetins a acariciarem-me os corpúsculos. Tocas à campainha dos meus sentidos: adormecem-me o domínio e acordam-me a lascívia. Sem eles nada fazia sentido neste pouco resto de pessoa que ambiciona a rendição do que há de devasso na concupiscência. Ofereço o meu corpo em troca de vãs caricias, de suspiros que seduzem o momento, de arrepios carregados de calor que visitam o prazer. Ofereço o meu corpo por uma vaidade da alma, que arranca a nitidez da sensatez e entrega como dádiva à estupidez.

Tudo muda depois dos tempos de quimera. Segue-se a acidez que sempre hiberna, sequiosa por explodir na facies do par. Vejo malignidade nos teus olhos, espelho dos olhos de todos nós. Não te quero mais, e não querer é poder. Há um mergulhar da tua dignidade no lodaçal do orgulho imódico que despersonalizou quem julgava conhecer. Vociferas que te resta dignidade quando o que cospes é um ciclone de estilhas pontiagudas residuais de um orgulho traído e deixas sufocar o digno que havia em ti. Tudo acaba, quando me entreguei a outros lábios, tapando os olhos à inocência. Em ânsias de tudo tornar a repetir e sentir, não sabendo que tornarei a ver os olhos de todos nós.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Quem tu és?!: és a nossa imagem



Sente o mundo girar!!
Há sequelas que perfuraram o ventre do mundo.
Na tua cegueira
Pensas colher o que te plantaram.
Ergues a mão
Dando mostras de que está vazia. Se os outros estão na miséria
É porque tu e os outros são a miséria humana.
Foste tu que te pariste.
E não te entregues ao doce engano.
Extremina o que fazem
Para que não sintas aquilo que és.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Textos no fundo do baú com pó

alguns dos trechos que vos apresento no blog são retirados do UVA: uma vida arquivada, onde sempre guardei o meu passado: poemas, cartas, petalas de flores que me ofereceram... a publicação de 11 de Maio ("para quem queira descortinar o insondável, não tente pegar pelo fio da linha temporal") é uma alusão ao facto de ter vários retalhos de textos retirados do UVA e outros actuais ... é intuito deixar sempre a incognita permanecer... mas hoje digo-vos que este é de 1997.

Vida recheada de vidas salvas.
Uma salva de palmas.
Mas não é espectáculo.
Caminho com os olhos dos outros
Desviados da minha existência só.
Chego a pensar que não existo,
Mas se não existisse não pensaria que não existia.
Ou afinal não penso,
Ou afinal existo.
Sei que penso demais.
Não existo, penso.
Existo no pensamento
E o meu pensamento existe.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Faz-te julgar de cego e a verdade foge-te da frente


Fonte: net
Montagem: Pessoa nenhuma

Conselhos para seres feliz
Recolhe-te no refúgio da tua vida e esquece a verdade que te circunda... e nada faças para a mudar...fecha os olhos se não queres ver...pensa em ti e só em ti...continua assim e sê feliz. Cruza os braços e senta-te...e pensa que tudo está bem ou que outros surgirão para mudar a verdade: um dia!!

Conselhos para sermos felizes
Olha e vê, porra!!
Faz alguma coisa, porra!! Mexe-te daí, porra!, ... sua alma entorpecida, acomodada!! Grita: dá-me as mãos amigo!! e vamos mudar a verdade!!...que tanto magoa para quem vê!

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Penso: entre a vida vivida e a pensada

Montagem: pessoa nenhuma
Pensando em nós...
entre os nós que deixei criar com os pensamentos...
penso que vivo uma vida sonhada...
o sonho de uma vida...
oiço o cantarolar de Almada Negreiros
não sei sonhar senão a vida
não sei viver senão o sonho!!
remeto-vos para Pessoa (Fernando)
Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra que é pensada,
E a única que temos
É essa que é divida
Entre a verdadeira e a errada.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Estática, fujo para o vazio.

Montagem: pessoa nenhuma (reside em mim)
Deambulo descalça entre as areias deste antro em que depositaram os meus pés, sem andar próprio.
Olho e não vejo. Vejo e não olho. Vejo o vazio dentro de mim, quando não olho para o mundo. Olho o vazio e não vejo o mundo.
Olho em frente! Vejo só o corredor! Sem fim! Vejo o nada. Estranho.
Sinto-me uma transeunte perdida à procura de se perder, nesta estrada mal alcatroada que deixaram para me ver cair. Mantenho-me firme neste covil em que me colaram os pés.
Lanço o olhar, agora, para o horizonte. Vislumbro a finitude do longínquo, que nunca alcançarei. Uma estranheza entranha-me nas entranhas do meu recôndito ser.
Penso no futuro que não existe: há-de existir. Penso no passado que não existe: só existiu. E, o presente é tão exíguo, de tão pouco espaço de existência deixaram para ele - e, é dele que fujo. Fujo para o passado e para o futuro ... que não existem.

domingo, 27 de maio de 2007

Empty!! Empty!!



Hoje em que nada há para dizer.
Hoje em que nada há para sentir.
Hoje em que nada me apetece fazer.

Oca.

Vazia.

Apática.
Letárgica

Estranha.

sem nada de novo a dizer.
deixo-vos entretidos com alguns comentários meus às publicações de blogs dos meus amigos.


(No blog: www.hojelembrei-me.blogspot.com)

sobre liberdade!


A compreensão é nos trazida pela identificação, muitas vezes. Quase todas as vezes - acreditem, se virem mais além! poucos são nutridos de empatia. compreendemos quando olhamos para nós.
Tal aconteceu-me ao ler mais um rasgo dos teus desabafos.
A rotina - significação de demandas sempre reiteradas que nos impõem e que permitimos que o façam, retira a nossa identificação. deixamos de perceber quem somos num mundo que dita quem deveremos ser. seres traduzidos em acções e bens expostos aos olhares. acabamos por ser quase só o que fazemos e o que temos; e pouco mais sobra de nós. e nós assistimos sem ver, de olhos bem vendados e cerrados para a nossa triste atomização.
Estes teus desabafos, imprimidos em letras, palavras, são não mais do que sopros do ser que fazes por sobrar de ti!, nem que seja o sonho dos teus seres que permites que coexistam em ti. Estes não são uma terapia de solidão; poderão ser de isolamento. podes estar longe de todos. mas nunca estarás só. o mundo está repleto de seres sós - todos aqueles que não se ouvem e não se vêem. Tu ainda existes!, porque parafraseando-te "tens um mundo dentro de ti".
As gentes regidas por uma normalidade castradora, escolhida por uma maioria, saca da liberdade e da diferença que nos distingue de seres domesticados. Urra!, à diferença!! Mas os diferentes indubitavelmente sentir-se-ão despejados num claustro sem janelas. mas amigo!, leva uma vela contigo, um papel e uma caneta!



sintomatologia da liberdade.


Os utopistas criaram o mundo. (E não Deus!) É uma verdade da humanidade, mas uma mentira para os condenados à renúncia da liberdade.
Nos primórdios os utopistas deixaram, na prateleira mais próxima do céu, um manual para os seus discípulos. O manual seria um legado para os homens que se entregassem a si. Manual da liberdade, ainda se lê. Mas este foi queimado desde há muito - desde que surgiu a civilização. Restam umas páginas, pouco legíveis, mas só inteligíveis para os que se elevam até aos céus.

Das páginas que lemos (eu e tu, meu companheiro de denúncia às renúncias dos que se encontram confortáveis sentados à espera da liberdade), sublinhámos trechos para plagiar e divulgar aos outros companheiros. Ainda me lembro: e, aqui deixo nota do que lemos, para ti, que te queres juntar a nós.

Só somos livres quando nos deixamos flutuar entre estados inebriantes, que nos afundam na loucura. Há uma linha muito ténue entre loucura e liberdade e a fórmula para a felicidade é andar sempre com a borracha na algibeira.

Temos que partir para bem longe do servilismo da tirania moral colectiva, da consciência colectiva que nos atrela aos seus pés. Temos que partir para bem longe para não nos condenarem a sermos um não-ser. Sempre muito lutámos pela liberdade das massas, mas nunca abolimos a prisão que há em cada um de nós.

Temos que deixar de ir para bem longe e deixarmo-nos dormir. Livres são os que ao sonho se entregam e deixam acordar o que de si os outros não deixam conhecer. Quando muito se entrega, de forma exclusiva, ao pensamento, sem deixar uma réstia para o sonho, estica-se, intuitivamente, os membros superiores, não para os outros lhe colocarem as algemas mas, para ele próprio se algemar. Fugir dos sonhos é nos entregarmos aos julgares dos outros.
Ser-se livre é fugir dos outros. E, sonhar!! E amigo!, como diagnosticar a sintomatologia da liberdade: depois de te dares a permissão de sonhar, dá-te a permissão de te rires do que sonhaste!



domingo, 20 de maio de 2007

Rugas do tempo: Rugas do esquecimento.



Dedicado aos rostos
sofridos,
do pensamento já esvanecidos
esquecidos,
até dos entes queridos,
mas,
aqui deixo nota como são merecidos,
até de desconhecidos.




Dedicado às meninas de 90.
Dedicado a quem cuido.




Montagem: por pessoa nenhuma (reside em mim)
Fontes das imagens - net.


sexta-feira, 18 de maio de 2007

Mais retalhos da história "memórias de uma velha maluca"

Continuando (...)

3. O encontro

Seria milagre de Deus, sua bondade e generosidade? Por vezes Deus parece dar-nos permissão para a ventura, mas decerto que devemos desconfiar. Vejamos!: uma rapariga de 11/12 anos menstruada, tem as condições para procriar e contribuir para o incremento do numero populacional. Ele deu permissão à criança de gerar um homem, no entanto criou uma sociedade que a considera leviana, com vida pecaminosa se ela deixar entrar na sua vagina um pénis, que tenha orgasmos, que tenha filhos. Mais!, ele poderá castigá-la, também, pela deformidade do ser nascido daquele útero. Deus estabeleceu uma idade mais apropriada para engravidar e as mulheres que não tiverem filhos dentro desse espaço temporal poderão ser castigadas. Não são as jovens que têm de pedir perdão pelos seus pecados a Deus. Considero que Ele é que deveria pedir perdão pelos seus embustes e á posteriori vingança pelos nossos actos.
(vou saltar propositadamente o encontro entre Isabel e a miúda de rua).
Segue-se a secção em que isabel recorre a todos os recursos de manipulação para convencer Mário a adoptar a miuda de rua). Sentem-se!

4. A proposta

O arrependimento de uma vida já vivida e que não pode ser retomada transporta consigo um dos piores estados: ser-se infeliz. Tecer cenários no futuro torna as nossas decisões mais sustentáveis. Escolher pode parecer fácil – escolhe-se o melhor para nós -, mas só o é quando se sabe o que se quer ou o que não se quer. Ainda há o problema dos outros, mas tendemos a pôr-nos sempre em primeiro lugar, por isso é o somenos. Tomar opções acertadas na vida de modo a não nutrirmos remorsos só será verosímil quando sabemos efectivamente quais as acertadas – e as opções por vezes surgem num plano tão nublado, que venda a razão de qualquer um. Não é fácil! Isabel pensou; projectou-se no futuro; sonhou. E tomou uma decisão – não sabia se a acertada.

Isabel chegara a casa cansada. Estendeu as pernas, um pouco edemaciadas, no sofá. Retirou as meias que apertavam-lhe as pernas. Ligou a TV. Seria a solução ideal – congeminava ela, roendo as unhas. Passava de canal a canal. As imagens passavam-lhe na retina. Mário ainda não chegara. Era o dia que ia fazer-lhe a proposta. Fez o jantar, tomou um duche e vestiu um top e umas calças justas. Esperava com isto chamar-lhe a atenção para o que iria expor. Pensou, o momento deverá ser solene. E nem sequer quero erguer o seu pénis só de olhar para mim, se não, não converso nada. E mudou para uma indumentária mais discreta. Acendeu um incenso que lhe restava na dispensa, de modo a lançar no ar um cheiro que apelasse à benevolência de Mário – acreditava no poder persuasivo do cheiro. Sentiu o barulho das chaves na porta: uma volta, duas voltas. A porta abriu. Era Mário. Jantaram. E fizeram sexo. Nada conversaram. Inicialmente atribuiu as culpas ao incenso, que deveria estar fora do prazo ou a vendedora vendeu-lhe o que apelava à paixão. Depois, racionalmente, considerou que teria de mudar de cenário, porque aquele era o antro das penetrações infortuítas.

Sábado à tarde, convidou Mário para um passeio no lago e para jantar no restaurante da ponte. A panorâmica era deslumbrante, inebriante até!, e com falas mansas talvez o convencesse. Talvez! Mário disse que não tinha tempo, que tinha muito que fazer e que podiam muito bem fazer logo sexo sem esses preparos todos, porque a mente dele nesse dia já estava liberta dos detritos da sociedade actual, porque tinha feito uma sessão de ioga, que haviam introduzido no programa inaugural do serviço de saúde ocupacional. Sentia-se bem. Pegou nela pela cintura e lançou-a no leito matrimonial. A cama cedeu ao estremeção, mas emitiu um ranger. Ela, já sem pensar em gerar uma criança, abriu as pernas e deixou-se invadir primeiro. Convenceria-o depois a dar o passeio que ela planeara. Fez sexo com ele, mas a sua imaginação levou o seu corpo penetrado para bem longe daquele quarto. Enquanto tudo sentia e gemia de prazer, viu-se num comboio com vários homens a perguntar se poderiam fodê-la. A linguagem da imaginação não é domesticada, por isso assim como ela imaginou, assim eu conto. Sentia vários homens a tocá-la, a puxar os cabelos, a mordiscar os mamilos, a lamber as orelhas. Faziam fila para a penetrar. Fez com tantos que perdeu a conta. Sentia a vagina quente e a latejar. Deixou levar o corpo a sentir pequenas convulsões aprazíveis. Quando abriu os olhos, viu o rosto do seu marido. É claro que a história que imaginou não fazia sentido, mas quando se faz sexo não se pode estar a pensar em grandes enredos, se não perdem-se as sensações. A historieta fantasiada não foi partilhada com Mário, como já havia feito várias vezes. Enquanto o faziam, ela contava histórias eróticas e ele acrescentava sempre retalhos pornográficos, obscenos, que ela apreciava.

Ela levantou-se e foi-se lavar. Ouviu-se o som da água do duche a correr durante meia hora. Sentiu-se fresca e limpa. Acordou Mário, que se encontrava na cama de pernas abertas, de pénis murcho. Ela foi ao bar buscar um copo de moscatel. Colocou umas pedras de gelo. Ligou o rádio e sentou-se nua no cadeirão do quarto a ouvir portishead e a beber. Repousante! Revitalizante! Lembrou-se de repente do convite para o passeio para o convencer. Tinha de o convencer. Quer dizer!, não sabia muito bem se seria o melhor, mas mesmo assim estava determinada a pressioná-lo na escolha. Era melhor mudar de estratégia de persuasão. O melhor seria apelar à compaixão.

No dia seguinte, Mário regressou do trabalho, conforme o costume das suas rotinas. Isabel não estava em casa. Dissera no dia anterior que iria para Sintra escrever no seu próximo livro. Sintra era a sua musa instigadora para o encontro das melhores palavras que constróem a melhor história. Sentou-se na sala de estar. Adormeceu por breves instantes. Tocou o telefone. Levantou-se. Era engano. Foi à caixa do correio: contas da luz, da água, prospectos de viagens e duas cartas. Dirigiu-se à cozinha. Uma era endereçada para ele. Era da prima. Da prima. Sentiu o seu facies ficar congestionado. Sabia que acabara de corar. Se fosse visto pela sua mulher ela iria, decerto, desconfiar de algo. Estava furioso. Furioso! Não só se encontrava colérico pelo atrevimento da prima como também consigo próprio, pois não conseguia dominar as demandas do coração e os efeitos que este lhe desencadeava no seu sistema vascular. O seu corpo, mais cedo ou mais tarde, iria denuncia-lo. Seria o seu próprio delator. Quando nos atribuímos culpa por algum acontecimento somos invadidos por um fardo violento, capaz de estraçalhar a nossa integridade mental. Mas o seu discurso só desferia a culpa na prima, omitindo o seu sentimento de co-culpado, como se um público o ouvisse e o recriminasse. Vociferou palavrões e desferiu um murro na bancada da cozinha: que atrevimento o dela de me enviar uma carta para casa. Hei-de as dizer, das boas. Que atrasada. Nem se atreveu a lê-la ali em casa. Guardou-a no bolso das calças. Depois, com receio de Isabel a descobrir correu para a garagem e guardou-a no caixote das ferramentas. Pôs uns trapos em cima – assim não deveria encontra-la. Com tempo, logo iria lê-la. Ou se calhar nem valia a pena, porque já sabia do que se tratava. Estúpida!- pensou. Voltou para a cozinha e pegou na outra carta. O nome do destinatário no envelope era imperceptível. Abriu-a. Tinha dificuldade em ler a letra quase ilegível; parecia de uma criança que começara agora a aprender a escrever.

Meo caro senhore

So Clara
Vivo na roa. Tenho fome. So popre. Poco tenho para alen da ropa.

Mário interrompeu a leitura. Esta carta deveria ser engano, pensou. Começou a coçar a cabeça e a enrolar uma madeixa imaginária. Não era fácil auferir o sentido das palavras. Tinha tantos erros, que só poderia ser de uma criança. Continuou.

So meiga. So espeta. So trapalhadora.
Conheci soa espoza. Somos amiga.
Queria emtam pedire a voçe se me podia colhere, como se filha foçe. Podia ser voça filha. Primero podia conhecerme. Si, se calhare to a falare muto, mas desculpe precisava de ums pais que perdi os meu.


Mário interrompeu a leitura. Começou a latejar-lhe a cabeça, na região parietal. Levou as mãos à cabeça, fazendo pressão no local doloroso. Foi buscar um analgésico à farmácia que se encontrava na casa de banho. Estava tão confuso. Seria engano a carta? – pensou. Parecia que não, porque falava na mulher dele. Estava entregue a um enrodilhado de cogitações e de indagações que parecia que o estonteavam: incrível, como Isabel não me falou nesta tal de Clara? Como posso aceitar uma criança como filha se nem a conheço? Só eu! Só a mim! Mas que raio! Nem sei se estou feliz com isto, se empertigado. Se calhar estou as duas coisas. Não!: feliz não. Perplexo sim. Mas que raio! Nem sei a idade da criança - admitindo que seja uma criança – sim!, partindo deste pressuposto. E indignado, também estou: então, mas, se Isabel é sua amiga não me disse porra alguma. Que diabo! Pegou novamente na carta com firmeza. Abanou a carta várias vezes, de modo a esta ficar rígida, tal qual ele se encontrava: corpo hirto e espirito absorto. Puxou as calças para cima. Cismado, leu novamente a primeira parte da carta e depois, avançou na leitura.

Pa acabare, queria falare pa pensare bem. Pudiamos conbinare uma saida os 3. Desejo muto, muto qe goste de mi.
Fale com sua espoza pa conbinare.

Clara, tenho 11 ano.
Desculpe os erro mas andei poco na escola. Mas aprendo rapido.

Perplexo dirigiu-se para a sala, deixou cair o corpo inerte no sofá e releu a carta. Releu-a e releu-a, como se conseguisse descobrir algo mais lendo-a muitas vezes. Pensou inicialmente que seria uma brincadeira de criança. Depois acreditou (a força do querer tornou-se sobreponível à força do crer) que as palavras até teriam alguma veracidade, mas que as duas não seriam assim tão amigas, como a tal Clara fazia parecer na carta. Acreditou que Isabel, quando soubesse, se iria rir. Sentindo-se mais relaxado, deixou o corpo escorregar pelo sofá. Deitado, olhou para um ponto – qual não sei- e imaginou os dois a rirem-se do atrevimento da pequena menina, desventurada na vida. Com este pensamento, esboçou um sorriso e considerou que estava a ser pateta ao se assustar daquela maneira com aquela carta. Mais perigosa se afigurava para o seu futuro a outra carta: a da prima. Dominado pela raiva, ergueu o corpo de rompante do sofá. (Gosto sempre de frisar o sentimento que se apodera da pessoa, precedente de qualquer acção. O sentimento tem um poder único de comandar o corpo e os seus movimentos de uma forma muito sui generis. A brusquidão dos movimentos é sempre consentâneo com sentimentos possantes e violentos. A leveza, a delicadeza dos movimentos são sempre demonstrativos de estados emocionais moderados, indicativos de tranquilidade). Já com os pensamentos focalizados na primeira carta acabou por se dirigir ao telefone para dar um bom responso à prima. Que burra! Deitar tudo a perder desta maneira. Eu já lhe digo umas tantas -. Terminadas estas palavras rugidas, Isabel entrou em casa, e interpelou-o no sentido de averiguar a quem se dirigia ele: era a mim que te referias? Ah!, que ideia a tua. – retorquiu ele.- Tens com cada uma. Não, não é nada disso. Estava-me a referir à Dina do escritório que denunciou uns clientes sem me pedir opinião. Enfim, estava a resmungar sozinho. Coisas do trabalho. Bom, ouve lá, precisava de falar contigo um assunto importante. Quer dizer, acho que é importante. Olha lá, despe o casaco. Aqui está calor. Não sentes calor aqui? Temos que comprar mais ventoinhas. Ou se calhar, temos que optar pelo ar condicionado. Este verão tem sido uma brasa. Insuportável. Bom, não interessa. Estava eu para te dizer que, recebi uma carta de uma tal Clara, sabes quem é? Isabel, com um ar meditativo, volveu, Clara?! Clara?! Eh pá!, só estou a ver uma miúda amorosa que conheci há uns tempos ... é uma miúda de rua, estás a perceber? Pobre. Órfã. Coitada da miúda. Por acaso, tenho pena dela. Era para te ter falado dela, mas ando tão absorvida pelo meu novo romance que me esqueci. Mário deu-lhe a carta para as mãos e ordenou-lhe que lesse. Isabel não conseguiu ler a carta toda. No desempenho de sua teatralidade, ela começou o seu pranto dramático, sacudida por fortes solavancos desencadeados por um choro convulsivante. Lançou-se nos braços do marido e entre soluços balbuciava uns monossílabos que pretendiam ascender a palavras, mas que acabaram por se tornar sons imperceptíveis: eu, eu ... ahh! Coi...coi...da..da!! Má...Má...io...io!! - Ele pregou-lhe um ar tranquilo e controlado: respira fundo e tenta falar pausadamente, se não, não percebo nada do que me queres dizer. Pegou nas mãos dela e levou-as ao seu peito, junto do coração. Esfregou-lhe o cabelo macio e sedoso. Deslizou as mãos pelo pescoço e fez-lhe uma breve massagem. Ele estava habituado a estes ataques de histeria, apelativos de sua atenção. Sabia que eram manobras de compaixão (ele evitava pensar que eram efectivamente manobras de manipulação), de modo a conduzirem as suas decisões ao seu propósito. Cansado daquela atitude hiperbólica de sua esposa e desejoso que aquele funesto dia, parecendo interminável perante os seus limites de resistência diária, acabasse, ele acabou por sucumbir à atitude drástica mas de rápidos efeitos: à agressividade verbal de modo a compor alguma ordem e paz ao momento. Os vizinhos com certeza que ouviram o grito vindo da moradia nº 513. Cala-te! - Mais calmamente ele sublinhou: cala-te! Acalma-te, se não não chegamos a lado algum. Por favor! Senta-te no sofá. Vamos conversar. Conheces esta tal Clara, já percebi. Já percebi que sim. Pronto! Estou metido numa alhada, também já estou a começar a perceber. Sabias que ela pretendia que a adoptássemos? Já sabias disto? Mas, que bela encrenca que me arranjaste. Desembucha. Isabel ficou atónita a mirá-lo desde que ele lançou o grito e desde então não ouviu mais nada, só pensava: isto não resultou. Este não foi um bom dia. Devia ter sido o dia da yoga, que ele vinha relaxado e a decisão iria ser tomada de animo mais leve. De certeza que ele hoje não foi à yoga. Ainda para mais este problema com a Dina. Que cabra, lixou-me tudo. A culpa é dela. É dela. Cabra. Nunca gostei dela. Incrível como os pensamentos de Isabel já derivavam na Dina, que já nem lá trabalhava, na realidade. De repente, ela sentiu que estava a acordar de um coma profundo e começava a ouvir um murmúrio, lá ao longe – era a voz de Mário. Deparou-se com ele a olhá-la fixamente nos olhos, bem de perto, e quase a sussurrar-lhe vagarosamente, Isabel! Isabel! Estás-me a ouvir? Estou a falar contigo. Diz-me lá: conhece-la? Queres o quê? Ela quer o quê? Vá lá! Por amor de Deus, fala. Estás-me a ouvir? Querida, desculpa ter gritado contigo, mas estou cansado. Fala! De chofre iluminou-se uma ideia a Isabel: durante toda a sua vida havia aproveitado como aliada a fraqueza dos outros, subjugada à sua mercê. (As gentes na demonstra de suas fraquezas individuais estão a munir os persuasores de autênticas armas de manipulação. Daí se infere, igualmente, que muitas vezes, os opressores se identificam como tal ao identificarem os seus opositores, os oprimidos. Os primeiros acabam por deportar a sua própria mesquinhez quando a balizam nos outros. A subserviência dos fracos aos fortes é o corolário de uma diferença perniciosa criada por ambos - sim!, não julguem que vos direi que é uma diferença criada pelos fortes. Pretendo ser propositadamente redundante!: a diferença é criada por elementos discrepantes e só assim. Mas, de facto, ambos ignoram que estão somente a contribuir para a clausura de entre iguais e a sua própria clausura.) Iria levá-lo à exaustão até ele ceder ao seu querer. Isabel lançou-lhe um olhar penetrante, complacente. E fora esse olhar o persuasor da decisão de Mário. Um olhar. Um único olhar. Ele apressou-se a alvitrar, ok, queres tu dizer o quê? que a queres adoptar? Mas eu quero um filho meu. Dos meus genes. Meu!!, ouviste bem? Era o momento da derradeira palavra. (A palavra certa é capaz de mudar destinos de vidas, de percursos da história). Vagueou o olhar pelo tecto. Levou as mãos aos bolsos e deixou-se cair no sofá. Mário mirava-a, não conseguindo prever os seus jeitos, o seu discurso, não conseguindo perceber sequer o destino do olhar de Isabel. Impaciente, levantou-lhe o sobrolho e bateu o pé esquerdo compassadamente no soalho da sala, emitindo um som inexorável que levantava no silêncio uma inquietude penetrante nas suas almas. Ouve meu querido. A decisão é tua. Eu gosto, de facto, da Clara, não o vou desmentir. Ela nunca me tinha falado no seu desejo de ser adoptada. Acredita em mim, querido! Vou-te contar como a conheci. E foi assim que ela deu inicio ao dialogo, que já não haviam tido algum desde há muito. O primeiro dialogo, retomado de há muito, fora sobre mim. A minha adopção. Ela pegou-lhe no punho e puxou-o para junto de si, no sofá. Ela falou durante muito tempo e ele retorquia, com ela a escutar atentamente as suas intervenções orais, porque assim lhe convinha. Era do seu interesse, entregar-se ao dialogo, retendo cada palavra, cada pausa, cada esgar, como se daí conseguisse prever a sua decisão. Querido, findou ela, eu não sabia. Mas, se ela teve esta coragem revela que é decidida e que gosta deveras de mim. O facto de a adoptarmos, ou se preferires, de a acolhermos em nosso lar, não significa que não podemos ter um filho nosso. Podemos continuar a tentar, com tempo, percebes. Pode ser que entretanto, como estamos distraídos com a Clara, na sua integração em casa, na escola, consigamos ter outro filho, quando menos esperarmos. Não sei, querido. A ideia, não me parece nada desfavorável, digo-te já. E de forma astuta, ela travara, de chofre, o seu discurso, pois vira no rosto de Mário, um prenuncio de uma decisão auspiciosa ao seu querer. Mário afundou-se em divagações: Isabel é brilhante. Nada como ter uma criança para livrar a mente de augúrios que contribuem para a infertilização num homem. No prazer consumido em jogos de distracção nascerá o meu filho feliz e saudável. Já havia tido indícios do destino que não seria na obrigação de afazeres de dois corpos deitados, jogados ao abandono da sorte, que conseguiria um filho. Eu tornei-me parte integrante no prelúdio de uma fase mais prometedora para o casal, mas assim não o foi por muito tempo.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

You Know I'm no good!!
(Amy Winehouse)

terça-feira, 15 de maio de 2007

Já são só corpos!!

Se quereis ser feliz, sê ignorante...e inútil. Sê espectador, como todos os profanos. Assiste, então, feliz!

Caro Darwin, sabemos ser produto de evolução, mas não seremos nós os antepassados dos símios?!

Insanos rompem a brusquidão da paz. Todas as partes constróem, moldam, prestadores de vassalagem à pátria. Pelo aperto de mãos se acorda o sofrimento de um povo. Os seus nomes assinados são os juizes da pena das gentes.

Direitos humanos proferidos, muito defendidos, espezinhados pelos tanques. Pena do vivo penar é a morte da honestidade, nesta animalesca humanidade. Salvaguardados só por quem sois, mobilizam forças inderrubáveis pelo poder do povo. Engavetaram-lhes o poder inato de questionar, de refutar.

Vai-se desfolhando o dia-a-dia, sempre agarrado a um sonho tricotando a esperança. Fuga é a possível escapatória.

Terror impele mãos à cabeça e impede que estas peguem na mala das suas vidas. Estremece pelo silêncio das armas. Tremelica! Desfere o medo no gatilho. Ensurdece pelo seu estrondo. Morte amortecida pelo milagre negado de podridão. Já são só corpos esculpidos pela dor.

Lembrança caridosa dos que sabiam que cá ficavam sobre os que não sabiam que partiam. E, já são só corpos! Passado vai sendo sepultado, varrido pelo tempo, retido nas lágrimas dos filhos da guerra. Vidas esquecidas, esvanecidas no olhar do tempo.


Já são só corpos.

MEU POVO: por AMOR a DEUS façamos GUERRA em outro POVO


Não tenho chão; mas, tenho o mundo da ilusão!!

Vi-te!
Ouvi-te!
Senti-te!
São os enganos dos sentidos,
No reino dos sentires pervertidos

Senti o sopro da tua voz;
Depois, um beijo mordido.
O teu desejo despiu-me felinamente o corpo já prometido.
Prometido!,
Mas não comprometido.
Prometido só
Á morte.
E é só!

(Mas, sinto que não palpas o meu instinto,
Nem tacteias o que sinto.
Eu sou saudade já balofa.
Sou lágrima já esquecida,
Mas que não deixa ser sentida.
Gostaria vislumbrar os contornos do teu rosto
No retrato da minha vida consumida.

Não consigo perceber
Se me encontro aqui ou lá.
Não sei!, porque não me encontro,
Enquanto te tento esquecer,
Neste silêncio morto.


Tento,
Sem tento,
Olhar além do além,
Tanto aqui como acolá.
Parece que a palpo - a lucidez.
Mas é pura embriaguez.
"Cai uma folha para o céu.
Voa um nenúfar para a boca do inferno
Em pleno inverno".
Não! Não há tento.
Não há!
Só há
Um tanto lento pensar.

Muitas vezes não conto o fim,
E julgam que terminei.
Nestes versos comecei pelo fim,
Mas não terminei,
Só dispersei.)

Dizia:
Vi-te!
Ouvi-te!
Senti-te!
São os enganos dos sentidos,
No reino dos sentires pervertidos

Vim-me!
Ouvi-me!
Senti-me!
E, culpei-me por plagiar os gritos que sufoquei outrora.
Tu!, apreciaste entre sentidos o monte que adivinha prazer.
Sentiste os meus lábios já intumescidos.
Abriste-me o capuz.
Senti-me em ti.
E vi luz,
Nessa hora.
Até frémito senti!
- Não na alma.
Senti-o em mim,
Em júbilo que depois me acalma,
Em tempos de quimera tão suspirados.

Não tenho chão.
Mas, tenho o mundo da ilusão! ;)

domingo, 13 de maio de 2007

Rascunhos no café Nicola



Com gotas de café
Nas papilas.
Lembro-me que me sopraste a fé,
Dos meus resquícios.
Sobrou-me apenas o sabor dos vícios,
Nos meus interstícios.

Andas descalço
Em cima de mim sem sentido
E eu sinto o estômago a gelar.
No teu encalço
Deixei há muito o sentido
Cair e se estatelar.

Já no termo
Encontras apenas
O meu ser ermo
Sem eira
Nem beira.

Com gotas de café
Nas papilas.
Vejo-me enclausurada em cerradas esferas
Onde cogito para os meus rascunhos
Em tempos de boas esperas.

Auguras
As minhas beiças caídas
Nutras saídas.
Perfuras
Minha ternura
Que permiti cair em desventura.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Para quem queira descortinar o insondável, não tente pegar pelo fio da linha temporal

Apenas são as minhas palavras.
São palavras
Retiradas do baú do passado, revistas no presente.
São palavras
Do presente já nascidas em ventre nú, morto.
São palavras
Surgidas de um vago pensamento, solto e dilacerado nas próprias palavras.
São palavras
Que se compõem para formar um pensamento.
São palavras.
E, só palavras

Palavras do silêncio

Serão as palavras o meu refúgio?
Será a plurisignificação das palavras o brinquedo que tenho entre os dedos?

Será que o pensar em ti me dá desalento aos ânimos, mas a loucura que preciso para soltar as palavras? Quero pensar que sim. Não penso em ti por ti, nem por mim. Penso em ti, porque me lança para o caos fraseológico, que tanto me apraz. Apraz-me conviver com a loucura que deixo viver - dá-me liberdade.

Prefiro que sejam as letras do silêncio.
Prefiro que estejam longe dos julgares que tentam calcar o juízo que quero perder.
Quero calar a palavra que ouvem.
Mas, quero exprimi-la.
É um brinde! Um brinde à vida.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Visto a indumentária de camaleão

Viva
o moscatel!!
3 URRAS!!
Viva
a versatilidade de pose
Viva
as incongruências de espirito
de quem veste a indumentária de camaleão.
Viva
o moscatel!!
3 URRAS!!

terça-feira, 8 de maio de 2007

bailado entre estilhaços

Paira à tona de água
Uma vigração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração


Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,


Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.


É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...
(Fernando Pessoa)



As minhas vistas passam por estas letras. assumem significação quando há identificação. de tanto vislumbrar o facies da sofrega alma nas letras que li, dignifica-me o vazio. vazio a bailar. como revejo quem eu não sei quem sou!! penso, pinço grandes ilações da magnânima verdade que julgo haver em mim e ...torno-me a encontrar a bailar:
sem saber quem sou;
e, sem saber a vida que tenho de quem pertence.

Acrescento pessoa. não da minha pessoa. a do poeta. alma de poeta que há em fernando e não em mim.

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.


O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.


Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
(Fernando Pessoa)

O meu vazio que traz e prega à alma um caos, recolhe-me todas as vontades e dá a mão à inércia. Deixo-me entregar. Quero-me entregar. viver no vazio é deixar-me cair no sonho. e sonho em ti. sonho em nós. nós só em sonhos.

nada me preenche.
nada me enche.
nada me intumesce.
tudo me foge ao senso.
tudo me interpela a pouca lógica que faço restar em mim.
tudo de ti me reitera a toda a hora e a todo o momento.
um sopro traz-me o teu rosto de volta à algibeira dos segredos. nada mais me resta. incrível que é: ter apenas a ilusão de te ter tido. só me resta a ilusória traição da memória dos momentos que vivemos. Entendes? só me resta o que não vivemos; mas, o crer e o querer viciam-me as lembranças retiradas à pinça da memória. Entendes? como me irrita o que sobrou de ti em mim, porque me deixou muito pouco espaço para mim. tanto que por vezes não sei o que quero de ti nem de mim. como aprecio a tua tristeza que vive em mim, quando pensas em mim, por me teres em vontades, mas não me teres em matéria. aprecio o teu sorriso que vive em mim, quando tu me escutas ao longe, de tão longe, bem de longe. Mas sei-o!, que quando pensas em mim, tomas-me por quem eu sou em mim. pouco sentes o que há de mim em ti, porque muito pouco tens de mim em ti. muito pouco há de sentires. sei-o!, que quando falas para mim, falas para mim. como queria que quando falasses para mim, falasses para dentro de ti - eu existiria em ti.

nada me preenche.
nada me enche.
nada me intumesce.
tudo me foge ao senso.
tudo me interpela a pouca lógica que faço restar em mim.
tudo de ti me reitera a toda a hora e a todo o momento.

domingo, 29 de abril de 2007

Só (e é só)


Retalhos do livro "Memórias de uma velha maluca"

Continuemos então a história de Memórias de uma velha maluca. Este trecho passa-se depois da traição entre Mário e Isabel. Passam-se uns anos (e saltam-se uns capitulos) e Helena casa-se. Recordo que quem conta a história é a velha, que, aos julgares de muitos, é maluca. Encontra-se fechada numa clinica psiquiatrica.


Naqueles tempos, Isabel nunca esteve apaixonada. Quem disser que, naqueles tempos, Isabel se apaixonou está de olhos vendados para o seu íntimo. Temos de saber amar-nos para saber amar o próximo. Pode-se julgar, ignorante e precipitadamente, que ela só se amava e a mais ninguém. Mas temos que nos inteirar mais além: ela não conseguia amar ninguém porque a sua alma era consumida por uma raiva que intumescia e acabava por sufocar todos os outros sentimentos. Ela não sabia, porque não conhecia a verdade do seu ser, mas a raiva que cuspia nas poucas palavras que proferia não eram dirigidas à sua irmã, mas para si mesma, por não ter conseguido arrebatar os ânimos daquele homem. Revelo-vos já, porque não consigo controlar a minha voz: Isabel, em eras mais avançadas, enquanto procurava a felicidade olhou para o seu âmago e quando deu por si estava apaixonada. Apaixonada!, mas não por Mário.

4. Nas vésperas do casamento de Helena

Helena fora traída, ouvira ela da boca da cúmplice da traição. Não suportava. De facto, não suportava tamanho indicio da infelicidade dos seus restantes dias partilhados com um homem que cedera tão facilmente à tentação. Ela acreditava que era mais do que a possibilidade de ser o início de muitas traições mas o presságio oferecido pelo destino, como aceno de sua amizade. Largara-o à desventura. Mas ele só ficou entregue àquela sorte funesta, na agonia do abandono nos primeiros dias, porque ele acabaria por se afundar numa paixão arrebatadora por Isabel.

Helena acreditava que um amor entrega-se ao esquecimento quando a memória está preenchida pela feição de outro homem, trazendo os sentidos renascidos. Procurou e encontrou. Estava noiva de Fernando. Guardo como recordação as suas palavras que proferiu a uma sua amiga, nas vésperas do casamento. Palavras de indignação porque Mário inicialmente telefonava a pedir desculpas e depois deixou de dizer o que quer que fosse. O silêncio dele era sinónimo de esquecimento. A amiga ripostou: ... mas tu vais-te casar com outro. Já não o esqueceste?! Disseste-me que já não gostavas dele; que estavas perdidamente perdida de amores pelo Fernando. Querias que ele continuasse atrás de ti, para quê? Para insuflar o teu ego? Para quê? Seguiste a tua vida e ele a dele. Tu sabes que não serias jamais feliz com ele. Deixaste-o como prenda para quem o aceitasse e quem o fez foi a tua irmã. Isabel respondeu com a voz arrastada, contendo o choro: mas foi por ela que eu o deixei. E, com ela ele ficou. Ohh pá! Não! É que não se pode confiar na palavra amor soletrada por um homem que nos agarra e geme aos nossos ouvidos. Porque é apenas uma palavra. Porque haveria de ser sentida? Sentia orgasmos, mas não sentia o que dizia. Rapidamente esqueceu-me. Grande amor o dele! Fez-se um breve silêncio. Tu também o amaste e não vais casar com outro? Querias que o amor dele por ti fosse duradoiro? Ele para encontrar a felicidade teve de a procurar onde o deixaram entrar. Ele quis voltar para ti e tu recusaste. Então, ele entrou na vida de Isabel. Helena com facies irada esbravejou: ele entrou em Isabel, queres tu dizer...Oh!! as palavras levam-nos a tantos enganos e ilusões. São apenas palavras. A amiga colocou a sua mão por cima do ombro de Helena. Olhou-a nos olhos. Sentiu-a deveras confusa. Sabia que ela gostava de Fernando e ainda guardava rancor por Mário. Não fizera o luto da relação antiga. Como seria ela feliz com Fernando quando estava ainda tão envolvida emocionalmente pelo outro? Temos que acreditar, efectivamente, mais nas acções do que nas palavras, sem dúvida. Mas, espero que te vás casar, não por aquilo que Fernando diz que faz mas por realmente ser quem é. Somos não só o que dizemos mas o que fazemos. O prémio Nobel da Paz não vai para os demagogos mascarados com um sorriso e para os bons pregadores do bem. O prémio vai para aqueles que ajudam o próximo, que contribuem para a defesa dos direitos humanos, enfim .... o bem tem de ser manifesto; um bem feito. Helena, mulher que aprecio pela sua inteligência emocional e suas defesas enfáticas, respondeu simplesmente: Bom ....eu acho que gosto do Fernando não só pelas suas qualidades, porque há muitos homens com qualidades apreciáveis. Eu vou casar-me com ele, mas não só por isso. Vou-me casar com ele porque considero que consigo conviver com os seus defeitos. São os defeitos que me fazem casar com ele.

Ainda hoje penso nesta conversa: escolher o companheiro de lençóis e de infortúnios com base nas suas diferenças, que se considera defeitos. De facto, ainda hoje eles estão casados. Deve ser este o segredo da durabilidade de um casamento: aceitar a diferença do outro e conviver bem com isso. Conhece-te, dá-te a conhecer, conhece o outro, convivam com as semelhanças e as diferenças, ou se preferires, as virtudes e desvirtudes um do outro. As virtudes comprazem a tua vida. As desvirtudes?, o que essas te fazem sentir?
(aguardem! Aguardem novos desenvolvimentos na história.)

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Deixem-me gritar: I'm Freeeee!!!!


(...)
Porque ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade.


(...)
Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do voo suave
Dentro do meu ser. (Fernando Pessoa)


Se Deus existisse, só haveria para ele um único meio de servir a liberdade humana: seria o de cessar de existir (Bakunin)

"... Sempre que uma grande e luminosa descoberta fornece benefícios aos mortais, facilitando e adoçando a vida, logo surgem os padres nos púlpitos, condenando-a como obra contra Deus e contra a fé de nossos pais.

(...)
Foi deste modo que perseguiram, sacrificaram e desonraram (quantos morreram cobertos de ignomínia e de miséria irresgatável!) Copérnico, que descobrira o movimento da Terra; Newton e La Place, que ensinaram o sistema do mundo; Franklin e Dawis, que abrigaram do raio e das explosões do grisu; Galvani e Volta, que revelaram as correntes eléctricas, hoje dominadoras do mundo; Wheratstone e Morse, que, por meio do telégrafo, fizeram voar o pensamento com a velocidade dum raio... Perseguiram Bacon e Descartes, ultrajaram Look e Espinosa. Le Bon, que iluminou as cidades a gás, foi obrigado a emigrar; Galileu, que nos legou o termómetro, a balança hidrostática e nos revelou o movimento da Terra, foi agarrado e torturado pelo dedo de Deus, nesse tempo ao serviço da Inquisição; Rousseau, que nos ensinou a arte de educar as crianças, foi um dos homens mais perseguido e mais repetidas vezes condenado pela igreja.


(...)
Que leia por exemplo, as páginas que tratam do ano mil. Ah! os falsos pavores dessa era terrível, que tantas desgraças e tão grande retrocesso social motivaram no mundo! Foi isso, como digo, no ano mil da nossa era. A igreja e com ela toda a cristandade, clamava que fizessem penitência, porque Deus ia dar fim ao mundo. Pois bem, Deus, que sabia tudo, Deus, que todos os dias falava com os seus padres, e estes que toda a hora recebiam, possuíam a Deus, nenhum disse a verdade às multidões. Deus consentiu que os homens deixassem de cultivar os campos, construir as casas, abrir estradas, educar a mocidade, amar e procriar, ordenando-lhes apenas que rezassem, chorassem e morressem de dor, esterilmente, como lobos famintos num deserto! E isto, durante anos e anos!

Muitos, para não assistirem à pavorosa e universal catástrofe, iam afogar-se nos rios, asfixiar-se nas adegas, abrasar-se nos fornos e, quantos, quantos, não foram sepultar-se vivos, em fundas valas e em negras cavidades subterrâneas! Tudo era desolação e morte, na expectativa , desse fim, E Deus viu tudo, Deus quis tudo, e a Igreja a tudo assistiu, como executora dos mandatos divinos.

Pois bem, todas essas lágrimas essas mortes, essas sepulturas vivas, esses ventres estéreis e, principalmente, esses irreparáveis retrocessos intelectuais, morais e económicos, tudo isso se teria evitado se Deus quisesse ser, por um instante que fosse, não digo já pai amantíssimo, mas simplesmente juiz consciencioso, alma de bom sentir e bom querer. Bastava que dissesse ao seu vigário na Terra uma palavra só; bastava um gesto, um aceno, e tudo se teria remediado e evitado. Mas não quis. E ate parecia ser ele o primeiro a sentir e a confessar o medo.

...Deus, que nos ouve e nos vê decerto nos aplaude, pois está-nos fazendo o mesmo que tem feito aos que na Terra se dizem seus representantes... Querem vocês saber como ele usa assistir aos concílios e outras reuniões da Igreja? Em qualquer dessas assembleias, a que o papa assiste muitas vezes e onde estão cardeais, patriarcas, bispos e padres, ergue-se de lá um, muito solene, muito grave e, dirigindo-se ao espirito invisível, ao mistério, exclama Se Deus aprova, que se deixe estar. Por conseguinte, se o vosso receio é que Deus não esteja satisfeito connosco, digamos nós também, como esses padres, ao começar este serão: - Se Deus não está contente connosco, se não aprova as nossas intenções e decisões que vão seguir-se, que faça o favor de se manifestar, erguendo-se, falando, exteriorizando-se, enfim. ...Como vêem, Deus conforma-se, aprova as nossas decisões."

De Tomás da Fonseca.

Professor e Escritor. Nasceu em 10 de Março de 1877 e morreu em Lisboa, a 12 de Fevereiro de 1968. Dezassete dos seus livros foram proibidos pela censura. Publicou em 1909: "SERMÕES DA MONTANHA".

quinta-feira, 26 de abril de 2007

retalhos do livro "memórias de uma velha maluca"

Livro a ser (re)construido há mais de 10 anos.
A história de vida da menina de rua cruza-se com a de Mário e com a de Isabel - casal que tenta procriar, sem nunca conseguir. Conheram-se através da irmã de Isabel, a Helena, namoradora de Mário. A história é narrada por uma velha, e conta a sua história de menina de rua, quando tinha 11 anos e que acabaria por ser adoptada pelo casal. Aos julgares de uma moral colectiva a velha era louca porque era diferente. Apresento-vos apenas alguns retalhos para aguçar a curiosidade.
Boa leitura!!
Prólogo
O mundo criou-me e deixou pouco espaço para mim, para as minhas escolhas, para as minhas afirmações. Pouco restou de mim!
Preparem-se! Sejam denodos! Sejam denodos o suficiente para ouvir esta minha história até ao fim. Preparem-se para conhecer uma saudosista despudorada (já sei que assim me irão considerar; já sei!! Também me preparei para vocês durante toda a vida).

Aviso-vos: se não quiserem ter o mesmo fim que eu contenham-se, reprimam-se. Vós não sois vós, sois o que os outros pensam e querem fazer pensar o que vós sois, mas que não o são. Mais: ainda antes de nasceres já te criaram, já te moldaram a índole, já te apresentaram a consciência universal.

Capítulo I
A sede do poder lança-me as migalhas e
A fome cala-me

A dor no corpo permanece-me cravada na minha memória. O desespero acompanhava-me neste sufoco. Ainda sinto o que sentia. Era a fome. Sentia-me uma morta a procurar pela vida, ou talvez uma viva a procurar a morte. A minha felicidade, na altura, restringia-se ao pão que me punha a trabalhar o estômago e dava-me energia para procurar mais pão - não é nesta parte da história que sou exagerada! Neste trecho da história estou a ser eufémica. Talvez o pão nos surgisse quando nos deixassem de dar as migalhas. A nossa procura pelas migalhas nunca fará com que o pão surja no nosso prato; só quando formos todos a partilhar as partes do pão por todos, por Direito Humano. As migalhas não nos calam a fome, mas calam as suas consciências e apaziguam a sua piedade que tanto os incomoda. Agem em solidariedade para se sentirem mais felizes. E nós ... nós só nos contentamos com o quase nada. Não temos força na voz para clamarmos a nossa dignidade e logo pensam que nós não temos dignidade.
Enfim, não me querendo alongar mais nesta parte da história, eu era uma menina da rua. Vivia das migalhas, acompanhada sempre pela fome. Tinha alguns conhecidos como o Pedro. Não sei se teria muitos amigos, porque o Homem quando em situações de sobrevivência partilhada une-se. E, esta união será amizade? Será que continuaríamos a ser amigos se nos acolhessem em casas diferentes? Na altura, não sabia a resposta. Mas o meu percurso de vida deu-me a resposta. São as respostas da experiência.
CAPÍTULO II
A vida de Mário e Isabel

1.Anseio de não procriar
A culpa ceifa a tranquilidade da mente e dilapida a partilha no leito matrimonial. A forma mais comum de fugir da culpa sentida é culpar o próximo. Então, lançam a provável hipótese de um deles ser o frustado e que algemou esta relação para a desgraça. Ambos refugiavam-se no confortante pensamento de que era o outro o incapaz. Receavam o confronto com a verdade. A verdade que os exames podiam oferecer, a verdade que grita que é o outro o são. Pelo julgar deste dilema, o problema só perdurava pela sua cobardia à verdade. Arrastaram a incógnita. A incógnita não só não era a solução como entumecia o receio à verdade e aniquilava a paz dos seus corações. Preferiam agir compulsivamente em incessantes tentativas. É uma escolha! Mas a escolha da fuga nunca pode ser uma boa escolha. Preferiam pensar será da próxima do que porem terminus à angustia da incógnita e terem a mais terrível certeza. Mas eles preferiam a angustia. Porquê esta angustia dilacerante? Porque permite ter esperança. O fim parecia-lhes longe. Sentiam-se infelizes, mas esperançosos de deixarem de o ser. A esperança por vezes enevoa o caminho e dificulta as escolhas. Muitas das vezes para encontrar o caminho de retoma para a vida real deve-se desfazer logo a esperança. Nem tudo é alcançável e há que deixar de ter esperanças de tal. Mas a felicidade é alcançável e essa é a única esperança que morre connosco. Para eles a sua felicidade era terem um filho, mas tal não era possível. Então teriam de encarar a realidade e pensarem em opções alternativas para redesenharem a sua concepção de felicidade. Para eles, de facto, a criação dependia das probabilidades: muitas tentativas num longo horizonte temporal fazem crescer as probabilidades.

5. o Coito
(Anuncio já aos leitores que esta secção é para maiores de 18 anos. Apesar de nunca ter entendido como se generaliza o despertar da sexualidade de cada um. Claro que o mundo depois está repleto de jovens pervertidos!! Rapidamente a sexualidade transpõe a linha ténue para a depravação, aos vossos julgares.)

Ela (Isabel) retomou com uma voz arrastada, aveludada: Fica por mim! Fica para mim!- Foram estas as suas frases. Fica por mim! Fica para mim! Tanto parecia um pedido lânguido como uma ordem surgida da audácia. A ambivalência do proferido atraiu-o (Máro) de súbito. Mirou-a! Olhou para aquela mulher como nunca se tinha atrevido a fazer e apreciou demorada e tranquilamente o seu corpo moldado coberto com uma leve camisa de dormir de cetim preto, rendada nos bordos das alças. As mamas saltavam do decote. Aprazido o seu desejo de a contemplar, sentiu o seu corpo invadido por uma sensação estranha: a estranheza da paixão ainda não aceite por si. Mas há momentos na vida que nos enevoam a razão, que nos enlaçam em estados inebriados, que nos lançam para vertiginosos feitos. Para descobrir tal mistério de um estado de espirito indefinido teria de se entregar à situação, render-se ao inesperado. A curiosidade de descobrir o outro, na sua intimidade sexual, impele os corpos para cima uns dos outros. É a necessidade de descobrir!, descobrir o corpo e o seu comportamento sexual: se o outro ondula, se estremece no clímax do prazer, se emite sons: gemidos, gritos, sussurros. Encontrava-se prostrado a olhar para ela. Os seus pensamentos flutuavam sobre o seu corpo. Esqueceu-se dos ponteiros do relógio. É daqueles momentos vividos com morosidade para ficarem retidos na memória, retardando o agir. Ela mantinha-se em pé e ele sentado. Era ela que pedia, era ela que estava a um nível superior, com a cintura acentuada denotando-se a larga anca, ao nível do olhar de Mário. Seria ele que iria satisfazer o pedido. Relembrou-se das suas frases mas reconfigurando-as conforme o seu desejo: Fica por mim! Fica para mim! Fica-te em mim! Fica-te dentro de mim! Surge-lhe uma vontade inesperada de a desnudar, um desejo sequioso de a possuir já ali no sofá. Os devaneios da tentação calavam o silêncio - outrora incomodativo, em que estavam mergulhados os corpos. Subitamente Isabel começou a bailar a anca e o roçar as suas pernas nas das dele. Ele imaginava que ia desvendando a sua nudez, levantando com um só gesto a camisa de dormir. Imaginava o talento de amante que ela teria. E imaginando sentiu-se. Sentiu palpitações, a respiração arfante, tremores nas mãos, o facies ruborizado. Sentiu a expansão do seu corpo já visível nas calças, preparado para a invadir. Viu-se assim vencido e agarrou-a pela cintura puxando o seu corpo para cima do dele. Dominado pelo desejo de descortinar o mistério que a envolvia viu-se a praticar acrobacias com Isabel. Rendidos à libido, os corpos estavam pela primeira vez entrelaçados, como iriam muitas vezes ficar. Após um momento de voluptuosidade, ambos entregues àquela lassitude recuperavam forças, partilhando um repouso. Mário contemplava aquela beleza, agora transpirada, com o mesmo olhar que iria ter muitas vezes. Olhou para o seu sorriso angelical, que se encontra facilmente nos humanos quando descansam. Estava ele ali deitado a namorar os seus lábios, reparando como o superior descansava levemente sobre o inferior. Quis sentir a sua existência entre os dedos, e aproveitou extasiar-se passando-lhe com o polegar pela boca húmida. Levantou descontraidamente o olhar para o tecto. Passou de relance o olhar pelo relógio da parede da sala. Como que acordando daquele estado de transe, viu nitidamente a imagem de Helena em frente do seu olhar. Abriu o sobrolho como se assim houvesse oportunidade de ver melhor ou de se certificar que a retina não o traíra. Mas foi uma aragem de pensamento que deixou-lhe como fardo o sentimento de culpa. De súbito sente o corpo algemado pela angústia. Levou as mãos à cabeça num gesto suave e penteou-se. A expressão do corpo aludia o estado da alma: confusa, embrulhada no processamento de tanta informação - informação da sua vida, da opção que acabara por tomar e que poderia toldar o futuro que planeara. A informação sensorial ficara porquanto abandonada. Uma opção!: uma divergência no caminho que levara. Uma opção! A sua mente muda, delatora sussurraria a Helena todos os pensamentos. Isabel ficou por instantes aturdida com suas cogitações, que poderiam ser deveras espinhosas para o planeado. Perante o eventual cenário dele a abandonar, ela sentiu-se impelida de redesenhar o seu plano estratégico, de forma eficiente. De chofre, Isabel ficou derramada em lágrimas, num estado lastimoso, apelativo para a compaixão de um humano. Andava pela sala, freneticamente, a vociferar entre soluços: e agora?! E agora?! Mário, apesar de sentir que já estava a arder no inferno, sentiu tumidez para com Isabel ao assumir o controlo da situação e reconfortou-a com as palavras calma e seus sinónimos. De súbito, ela estacou hirta mesmo frente a ele e perguntou de forma pausada: estás com medo, não estás? Diz-me! Estás não estás? Ele anuiu com a cabeça. E, ela iniciou a sua marcha nervosa, até que se deixou cair de joelhos junto à mesa e entre gemidos e soluços proferiu: meu Deus! O medo supera, asfixia qualquer outro sentimento. Por medo se morre. Por medo se mata. Por medo se abandona o amor. Por medo podes-me abandonar. Por medo podes-me matar: sem ti eu morro. Sem ti eu morro! Ouves-me!!: sem ti eu morro. Oh Deus! Aquela mulher que vigorava sobre si à pouco nutrida por uma intrepidez invejável aparecia-lhe naquele instante frágil, ao ponto de dizer que morreria sem ele. Sentia-se enobrecido por ela lhe conferir o dom de protecção e pertença. Agarrou-a na nuca e beijou-a. O intimo de Isabel rebolava de tanta regozijo. Mais uma vez ela indicava o caminho que queria que Mário seguisse e ele fazia-lhe a vontade. Enlevava o seu ego até junto aos ceús e ele respondia aos desejos dela. A cena de amor terminou e já quando ele transpunha a porta de entrada ela declarou Mário, meu homem, a salvação para este mal a que o prazer nos jogou é pedirmos perdão à vitima mais crucificada. Mário volveu-lhe, assombrado pela ideia: não faças isso! Será a desgraça para os três. Deixa-me ir para casa pensar ... reflectir. É isso: preciso de reflectir. Entrámos pelas portas do pecado sem pensar e perdemo-nos. Agora para nos encontramos neste labirinto a que nos largámos temos de pensar no melhor caminho para sair pelas mesmas portas. Sabes que já namoro a tua irmã à seis meses e namorei-te em menos de seis horas. No entanto não sei se estou ludibriado por este enredo que extasiaram os meus sentidos e sentires, mas acho que estou deveras mais apaixonado por ti. Engoliu em seco e pensou: sinto-me deveras mais apaixonado por ti, pelo teu corpo e sua pujança. E saiu.

Isabel narrou tudo a Helena quando ela chegou. A traída disse a Mário que estava desiludida e magoada – uma magoa que cegava a identidade da pessoa de Mário que ela conhecia. Interrogou-se se realmente o conhecia e se merecia ser conhecido. A confiança fora perdida e portanto a relação também.
Mário continuou a telefonar a Helena dizendo que não a queria perder mas simultaneamente visitava Isabel, a tirar partido das suas constantes e misteriosas dualidades que erguiam a sua verga. Tanto entregava-se à escravatura do amor como intumescia-se perante os comentários astutos duma mulher sabida na vida. Tanto aliciava a sua desenvoltura quando se encavalitava nele, puxava os seus cabelos e lhe dava ordens, como se admirava quando ela se deitava no seu colo e lagrimejava pela traição passada, motivo da ruptura da relação da irmã com ele. Apaixonou-se por Isabel e deixou progressivamente de pensar na irmã.

7. Sempre me encontro aqui

Passei por tantos dias infaustos enquanto filha da rua, mas quando deixei de o ser, o cruel fado enterrou-me viva, pregando-me uma impiedosa partida. Esperava que as recordações da paixão viessem a jazer sepultadas na minha mente, mas ainda hoje as guardo. Julgo que ficaram ancoradas à minha memória para sempre.

Saio da janela. Dirijo-me para o espelho e vejo a marca da idade junto à boca e aos olhos. Envelheci. Mas a dor que ficou manteve-me o espirito agarrado à minha juventude. Envelheci entre estas quatro paredes parada no tempo, com o passado a rever-se à minha frente. Vejo-o tão nitidamente. É o meu presente. E só deixará de o ser quando entregar o meu corpo à terra e deixar necrosar a alma juntamente com ele.

Eu agora preocupo-me com as inquietações de cada um de outrora. Preocupo-me por tomar a todas as horas os comprimidos que me acalmam os anseios. São as preocupações que me definham, contudo são estas quem me mantém viva. Se não vivesse o passado só poderia viver um sonho, porque o presente não. O presente são comprimidos. O presente é a clausura destas quatro paredes.

Não me preocupo com as rugas, pois são aquelas que me fazem lembrar todas as manhãs que sou uma privilegiada por me aperceber pela passagem do tempo. Apreciar a passagem do tempo é um apanágio conferido aos viventes. As rugas são um dos poucos motivos de felicidade que comemoro todas as manhãs.

7. A propósito de liberdade


Permitam-me um desvio da minha história, mas esta só faz sentido se me conhecerem. Para me conhecerem deverão ouvir-me. Odeiem-me só depois de me conhecerem; conhecerem-me tal e qual como sou e não como gostariam que fosse.


A propósito de culpados! Reflicto agora sobre culpados. Temos sempre que atribuir culpa. Porque perdemos tempo? Para evitar que se volte a repetir? Resguardamo-nos por detrás da culpa. Alivia-nos a culpa do outro! A culpa sendo do outro é um bálsamo para o fardo das consciências já encarceradas pelo juízo social. Para além disso, usufruir do mesmo recurso de Deus é supremo: castigar. Castigo! Como podem os crentes ser livres?! Como pode Deus ter criado o Homem, que sempre lutou pela liberdade, que trouxe tantas carnificinas que ensanguentaram a história em nome da religião, em nome do Supremo? Como podem ser livres quando têm receio sempre de serem punidos pelo que fizeram. Onde está a liberdade de acção? Porque castiga Ele? Decerto que é astuto, porque oferece como castigo a pena do incógnito; a impossibilidade de confirmar o terrível do inferno. Porque criou ele, como castigo aos vivos, o desconhecido? - o pior dos castigos!


Quero deixar já explicito um facto que dadas outras circunstancias seria um pormenor mas dada a esta situação que se avizinhará será um escândalo. Para mim escandaloso são os vossos preconceitos que não o tornam um pormenor. Os pormenores em diferentes contextos fazem a diferença, e de pormenores se passa para o extremo de magnânima importância. Este pormenor de que vos vou segredar, aliás, posso mesmo gritar – quero lá saber! Nunca quis! – fere apenas a moral colectiva deles – viram como vos protejo referindo-me a vós como sendo eles – é por isto que adoro o poder da língua, das suas figuras de retórica, de pensamento, dos seus subterfúgios, dos eufemismos, da ironia, das hipálages, dos paradoxos. Muitos podem dizer que as atitudes dos outros desde que não incomodem não se devem julgar, mas o meu caso era diferente porque incomodava. Incomodava porque assumiu a diferença. Os vossos preconceitos também me incomodam. Nunca quis deveras entrar na esfera do servilismo, sofrer a tirania social sobre as minhas condutas. Dei-me a conhecer, tentei ilusoriamente viver livre assumindo a minha identidade, mas a verdade é que nunca fui nem serei livre. Porquê? Porque ninguém o é! Só serei livre quando formos todos igualmente livres, livres de escolhas, de vontades, de iniciativas. Nunca serei livre dentro desta sociedade encapsulada de forma quase hermética. Consideram de facto que somos todos diferentes aceites pela sua unicidade de direito à diferença? Já na Inquisição se lançava à fogueira a diferença, exaltava-se os preconceitos pela diferença, erguia-se os filhos nos braços para apreciarem e se regozijarem com a agonia e a justiça que estava ser feita. Se se luta, escraviza, hostiliza, mata pela diferença porque a criou Ele então? Porque não criou Ele clones?


O pormenor que vos quero anunciar era a minha idade. Tinha 11 anos e era menstruada. É de facto uma banalidade para a história, parece. Mas as aparências são subjugadas às conjunturas; o que parece hoje e aqui não é o mesmo que amanhã noutro cenário.


(......) e o resto fica para lerem daqui uns anos.

5 da manha


São 5 da manha. Consumida pelo cansaço em que me encontro... ou melhor já não me encontro. Perdida num vago encontro de caos. Sobra-me o sentido pendurado na vertigem da alucinação. Estou em pé. Junto à janela. Afasto as cortinas. Não gosto do que vejo. E deixo-me cair. TOMBO! E não me levanto! Fico deitada. A perspectiva do nada transforma-se. Passo a vislumbrar tudo que se verga ao meu olhar, num plano totalmente subjagado aos meus pés. A estranheza do meu estado taz gargalhadas mergulhadas em mim. Só eu as oiço. Aprecio o momento...e parece que para ver melhor tenho de fechar as vistas ao mundo e ao de leve passo a lingua pelos lábios inferiores. Vejo o que quero ver. Tenho a imaginação tal e qual como a quero...aos meus pés, longe da realidade, lá longe, fora da janela. Imagino que tu estás junto a um corpo. A minha consciência impede-me de discernir de quem é o corpo. O corpo encontra-se envolto numa névoa que retira todo o seu perfil. Nem o semblante vejo. Nada! Queria acreditar que seria o meu... mas a verdade, é que ... a realidade encontra-se bem longe mas eu estou aqui. O eu consciente não larga o subconsciente. De que me interessa estar longe de todos, se tenho o maior acusatório nesta sala: EU!! Porra. Nem sequer consigo ver o que quero.

tempo que deixei restar


Iniciei-me. O regozijo da descoberta arrasta-me nas veias a adrenalina que me desencadeia a taquicardia que me faz sentir. Sentir-me!!
Penso no tempo! O tempo que me resta! O tempo que deixo restar!
Salta-me na voz o silêncio que se repete...em eco que vai murchando com o tempo.
O tempo sempre me incomoda a vontade de controlo. Saber que vivo para um dia morrer traz-me um sorriso nos lábios, mas o tempo que me auferiram à nascença rasga-me o sentido de sonhar. Cabrão do tempo! As rugas na mente trazem-me a loucura, já sentida, que será bem vinda à aceitação da morte.
O tempo foge fronte à minha retina e semicerro as pálpebras e vejo o nascimento dos actos. Se tudo entendesse que se passa dentro de mim, seria um tédio de pessoa...nenhuma. Deixo o tempo roçar as minhas vontades de viver, sem força de vontade de agarrar o agarrável. Porra! Não vale de nada a vontade quando não há oportunidade.... e o tempo sempre a lembrar-me quão inutil é um sorriso do nada, quando tudo se escorrega aos meus pés num ápice de uns anos.
Sinto a estranheza de uma vida que por vezes não sei de quem pertence. Não saber quem sou, são indagações que me imponho pelo pouco tempo que me resta e que sempre, de facto, deixei restar.